IFSC VERIFICA Data de Publicação: 30 dez 2025 08:00 Data de Atualização: 30 dez 2025 08:00
Nos últimos meses, circularam nas redes sociais vídeos e posts afirmando que “protetor solar faz mal” e até que o uso diário desses produtos poderia causar câncer. As mensagens costumam vir acompanhadas de frases de efeito, jargões pseudocientíficos e um apelo à “natureza” – mas sem apresentar estudos sérios ou consenso entre especialistas.
Do ponto de vista da saúde pública, porém, o recado das entidades científicas é outro: o excesso de sol sem proteção é um fator importante para o surgimento de câncer de pele e outros danos à saúde, e o protetor solar é um dos principais aliados para reduzir esse risco.
Neste post do IFSC Verifica, conversamos com as professoras do IFSC, Vanessa Luiza Tuono, mestre em Saúde Pública e doutora em Enfermagem, e Tula Beck Bisol, mestre e doutora em Química, para responder às seguintes questões:
- O que é, afinal, um protetor solar e como ele funciona na nossa pele?
- Protetor solar pode fazer mal ou causar câncer?
- Sol, DNA e câncer de pele: qual é a relação?
- O que significam os números do FPS (30, 50, 70, 100)?
- Protetor solar com FPS acima de 30 é tudo igual?
- E a vitamina D: dá para conciliar o uso de protetor com a produção dessa vitamina?
- Qual fator de proteção solar escolher?
- Por que aplicar o protetor antes de sair no sol e reaplicar ao longo do dia?
- Como escolher o protetor ideal para cada tipo de pele?
- Protetor mais caro é mais seguro do que o mais barato?
O que é protetor solar e como ele funciona?
Antes de falar em mitos, é importante entender o básico: o que exatamente é um protetor solar do ponto de vista da química.
Segundo a professora Tula Bisol, “um protetor solar, ou filtro solar, é uma formulação cosmética cuja função principal é reduzir a quantidade de radiação ultravioleta (UV) que atinge a pele.”
Existem dois tipos principais de protetores: os filtros orgânicos – equivocadamente também chamado de filtros químicos –, que são moléculas orgânicas que absorvem luz UV e dissipam essa energia na forma de calor ou outra radiação de menor energia; e os filtros inorgânicos ou minerais – equivocadamente chamados de filtros físicos – que são partículas de dióxido de titânio ou óxido de zinco que, além de absorver parte da radiação, também atuam por reflexão e dispersão da luz. Além dos filtros, o produto inclui uma série de outros componentes para que a fórmula seja estável, agradável de usar e segura.
Protetor solar causa câncer?
A frase “protetor solar faz mal” tem aparecido com frequência nas redes, muitas vezes associada à ideia de que os “químicos” presentes na fórmula seriam tóxicos e, por isso, poderiam provocar câncer. Para a professora Vanessa Tuono, essa afirmação inverte a realidade. “Quem causa câncer de pele é a radiação ultravioleta, enquanto o protetor solar é justamente uma das principais ferramentas para reduzir esse risco”, resume.
As grandes revisões científicas e instituições de câncer e dermatologia são unânimes em afirmar que não há evidência de que o uso correto de protetor solar cause câncer em humanos. Ensaios clínicos e estudos de longa duração mostram que o uso diário de protetor solar reduz a incidência de câncer de pele, incluindo melanoma e carcinomas não melanoma. A Organização Mundial de Saúde e outras entidades destacam que o excesso de radiação UV é responsável por centenas de milhares de novos casos de câncer de pele por ano, e recomendam protetor como uma das partes das medidas de proteção.
Então de onde vem a desconfiança? Vanessa aponta que, muitas vezes, há uma mistura de fatos reais com interpretações erradas. Entre os pontos que costumam ser usados para alimentar desinformação estão, por exemplo, casos de lotes específicos de protetores contaminados (que levaram a recolhimentos pontuais, sem colocar em xeque o uso de protetor como medida de saúde pública) e estudos em animais com doses altíssimas de alguns filtros, em condições muito distantes da forma como os produtos são usados no dia a dia.
Um dos argumentos utilizados para defender essa desinformação é de que, nos últimos anos, houve um aumento no número de casos de câncer de pele e também um aumento no uso de protetor solar. Entretanto, o fato de dois acontecimentos crescerem juntos não significa que um esteja causando o outro.
“O aumento no número de casos de câncer de pele nos últimos anos - apesar do aumento no uso do protetor solar-, ocorre devido à existência de métodos de diagnóstico mais eficientes, a uma maior exposição ao sol por parte da população e também pelo envelhecimento da população como um todo”, analisa Tula. “Cabe ressaltar que os filtros solares são testados quanto à eficácia e segurança de acordo com regulamentações bastante rigorosas e, para serem comercializados, precisam ser registrados na Anvisa”, acrescenta.
Sol, DNA e câncer de pele: qual é a relação?
Se o vilão não é o protetor, então onde está o risco? Na radiação ultravioleta. “A luz ultravioleta do sol (UVA e UVB) danifica aos poucos o material genético (DNA) das células da pele. A pigmentação ou bronzeado da pele é uma resposta de defesa a um dano causado pelo sol,” explica Vanessa.
Esse escurecimento, que muitas pessoas associam à “pele bonita”, na verdade é um aviso de que a pele já sofreu agressão. “O bronzeado não é sinal de saúde, mas de que a pele já recebeu uma dose de radiação suficiente para ativar esse mecanismo de defesa. Cada vez que a pele escurece pelo sol, significa que parte das células sofreu dano, o que, se repetido por muitos anos, contribui para envelhecimento precoce, manchas e aumento do risco de câncer de pele”, alerta.
Quando a exposição ao sol é frequente e sem proteção, parte desse dano não consegue ser reparado pelo organismo e começam a surgir “erros” no DNA. Com o tempo, o acúmulo desses erros pode fazer com que uma célula normal comece a se multiplicar de forma descontrolada – processo que está na base da formação de tumores de pele.
Por isso, não se trata apenas de “um dia de sol forte na praia”, mas da soma das exposições desprotegidas ao longo da vida. O protetor solar entra justamente como uma barreira importante nesse processo, reduzindo a quantidade de radiação que chega às células.
O que significam os números do FPS?
Na prateleira, o fator de proteção solar (FPS) vai de 15 a 100 ou até mais. Mas o que esse número quer dizer na prática?
A professora Tula detalha que o FPS representa o tempo relativo que o protetor solar protege a pele contra os raios UVB. Por exemplo, se a pele de uma pessoa fica vermelha sob o sol após 10 minutos sem protetor, então com um protetor com FPS 30 o tempo seria 30 vezes maior, ou seja, 300 minutos, desde que o filtro seja aplicado de forma correta.
Protetor solar com FPS acima de 30 é tudo igual?
A professora Tula observa que, considerando o cálculo da porcentagem de radiação bloqueada, de fato, o ganho percentual diminui conforme o FPS sobe. Por exemplo: a diferença entre FPS 30 e 50 é de, aproximadamente, 1,3 pontos percentuais (96,7 → 98%), mas esse pequeno percentual pode ser relevante, dependendo do tipo de pele e da quantidade de exposição ao sol ao longo da vida. “Se uma pessoa toma sol todos os dias por anos, um pequeno percentual de 1 a 2% de bloqueio de radiação a menos por dia significa uma dose total de radiação UV acumulada maior ao longo dos anos, aumentando os riscos de fotoenvelhecimento e câncer de pele”, ressalta.
Por isso, para muitas pessoas o FPS 30 já oferece boa proteção no dia a dia, mas grupos de maior risco podem se beneficiar de fatores mais altos, como pessoas com pele muito clara, histórico de câncer de pele, que fazem uso de medicamentos fotossensibilizantes ou ainda que sofrem exposição intensa ao sol, como praticantes de esportes ao ar livre. “Outro fator que vale salientar é que a aplicação real costuma ser muito inferior à quantidade usada nos testes laboratoriais e, por isso, o uso de um protetor com FPS maior pode compensar a aplicação incorreta ou insuficiente”, adverte Tula.
E a vitamina D? Dá para conciliar com o uso de protetor?
Um argumento bastante usado para criticar o protetor solar é o de que ele impediria o corpo de produzir a Vitamina D, que é uma substância vital que o corpo fabrica principalmente na pele (cerca de 90%) quando você toma um pouco de sol. A professora Vanessa ressalta que o uso de protetor realmente reduz parte da radiação UVB que chega à pele, mas isso não significa que seja necessário abrir mão da proteção para garantir níveis adequados dessa vitamina. “A atual epidemia de hipovitaminose D se deve muito mais à ingesta insuficiente e, principalmente, dos hábitos de lazer e de trabalho em ambientes abrigados da proteção solar, característicos da sociedade moderna que não se expõe ao sol no seu cotidiano”, informa.
Além disso, há fatores individuais – como idade, cirurgias, medicamentos, obesidade e variações genéticas – que interferem na síntese e disponibilidade de vitamina D. Por isso, segundo a professora, a melhor abordagem é buscar o equilíbrio. “Para garantir os níveis necessários de vitamina D, pode-se programar exposições solares curtas e planejadas, em horários mais seguros, de acordo com tom de pele, região e orientação médica, além de consumir uma alimentação rica em vitamina D e, se for preciso, suplementação”, recomenda.
Em outras palavras: é possível, sim, conciliar o uso diário de protetor solar com produção adequada de vitamina D, desde que as estratégias sejam planejadas com orientação profissional.
Qual fator de proteção solar escolher?
De acordo com recomendações de sociedades dermatológicas brasileiras, o fator de proteção solar deve ser definido a partir da tonalidade da pele e da intensidade da exposição solar. A Sociedade Brasileira de Dermatologia sugere o uso de protetores com, no mínimo, FPS 30 para a população em geral, indicando fatores entre 50 e 70 para indivíduos de pele clara, olhos claros, história de câncer de pele ou longos períodos de exposição solar.
Em idosos e pessoas com histórico de câncer de pele ou outras doenças, a orientação é redobrar a atenção. No caso das crianças, a pele é mais fina e vulnerável ao sol, o que exige cuidados específicos. “Crianças precisam, sim, de cuidados específicos, porque a pele é mais fina, mais sensível e mais vulnerável ao dano solar do que a de adultos”, reforça Vanessa.
Outra dúvida comum é se pessoas negras ou com pele mais escura realmente precisam usar protetor solar todos os dias – e a resposta é sim. “Tons de pele mais escuros precisam de mais tempo de exposição ao sol para sofrer dano solar, porque a melanina, que dá cor à pele, oferece ao DNA uma pequena proteção contra o sol. Ainda assim, essa proteção é limitada e não impede completamente o dano solar”, explica Vanessa.
Ou seja: a melanina oferece uma proteção parcial, mas não é um “escudo total”. Por isso, as recomendações de uso de protetor também valem para pessoas de pele morena e negra.
Por que aplicar o protetor antes de sair no sol e reaplicar ao longo do dia?
Já ouviu o famoso “Passe o protetor de 15 a 30 minutos antes da exposição?”. Tem um porquê. Do ponto de vista da formulação, Tula comenta que esse tempo é necessário para a formação adequada do filme protetor sobre a pele. “Esse tempo é preciso para que ocorra a evaporação do solvente, formação de um filme contínuo e melhor fixação do protetor na pele. Além disso, durante esse tempo, no caso dos filtros orgânicos, ocorre a distribuição do produto na camada córnea para oferecer proteção ideal”, esclarece.
E não basta aplicar uma vez: suor, água, atrito e o próprio tempo vão reduzindo a proteção. De acordo com a professora Tula, a reaplicação é fundamental para “recompor a camada” e manter o nível de proteção próximo ao que foi testado em laboratório, reduzindo o risco de queimaduras, dano ao DNA e câncer de pele. “Na prática, recomenda-se reaplicar a cada 2 horas em qualquer exposição prolongada ao ar livre e sempre reaplicar imediatamente após nadar, suar intensamente ou se enxugar com toalha, pois essas situações removem o produto mais rapidamente”, orienta.
Como escolher o protetor ideal para cada tipo de pele?
Do ponto de vista da saúde, o protetor solar é importante para todos. Mas a forma de escolha muda conforme o tipo de pele e as condições de cada pessoa. Veja abaixo algumas recomendações da professora Vanessa:
- Para peles oleosas ou com tendência à acne, recomenda-se optar por fórmulas que não entupam os poros e sejam livres de óleo (oil free).
- Em casos de melasma e manchas, é importante escolher protetores de amplo espectro – ou seja, que protegem tanto contra os raios que queimam a pele quanto contra os raios que envelhecem e danificam a pele por dentro –, com boa proteção UVA e, idealmente, com cor ou pigmentos, que ajudam a bloquear também a luz visível, reconhecida como fator de piora do melasma em fototipos mais altos.
- Peles sensíveis ou com dermatites podem se beneficiar de protetores com filtros físicos (inorgânicos) e rotulagem específica para pele sensível.
Quando dois produtos têm o mesmo FPS, o mais importante é prestar atenção na indicação de proteção UVA – no Brasil costuma aparecer “UVA” em um círculo ou o termo “amplo espectro”, que indica proteção contra radiação UVA e UVB.
A professora Tula ressalta ainda que pessoas com pele sensível podem preferir filtros minerais ou inorgânicos e que vale observar informações como “sem fragrância”, “hipoalergênico” e “resistente à água”. E alerta para um mito comum: a ideia de que filtros minerais seriam “mais saudáveis” do que os orgânicos. “Não, ‘mineral’ não significa ‘mais saudável’ e a ideia de que algo químico é ruim é uma falácia, porque a química está em todos os protetores, inclusive nos minerais”, pondera.
Protetor caro é mais seguro que o barato?
Na hora de escolher um protetor, o preço do produto pode ser um fator que influencia na escolha. Será que o protetor mais caro é sempre mais seguro? Tula responde:
“Dois protetores solares com mesmo FPS e registrados na Anvisa atendem aos mesmos padrões mínimos de segurança e eficácia. Produtos mais caros geralmente são formulações cosméticas mais sofisticadas, com melhor experiência sensorial (textura e odor) e que prometem benefícios extras, como resistência à água ou toque seco, por exemplo. Algumas formulações empregam filtros orgânicos mais estáveis ou combinações com filtros físicos, além de antioxidantes, ingredientes anti-idade, entre outros. Resumidamente, custo maior não garante segurança superior, mas pode refletir benefícios extras e melhor experiência sensorial.”
Ou seja: na hora de escolher, mais importante do que o preço isolado é verificar se o produto é registrado na Anvisa, se oferece proteção UVA/UVB, se tem FPS adequado ao seu caso e se se adapta bem à sua pele – o que inclui textura, conforto e ausência de irritações. “O melhor protetor é aquele que se adequa melhor a sua pele e que você usa da forma correta”, reforça a professora.
Mas atenção: mesmo os melhores filtros não funcionam bem se o produto estiver estragado. “Os filtros podem perder eficácia e segurança após o prazo de validade, o que é acelerado se expostos à luz e/ou calor extremos”, adverte Tula.
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