O que o Brasil ganhou com a COP30?

IFSC VERIFICA Data de Publicação: 09 dez 2025 09:26 Data de Atualização: 09 dez 2025 19:45

De 10 a 21 de novembro, a cidade de Belém, no Pará, foi sede da 30ª Conferência das Partes (COP) sobre Mudança do Clima, da Organização das Nações Unidas (ONU). O evento reuniu representantes de 194 países para discutir ações de combate às mudanças climáticas. As discussões das COP têm como objetivo limitar o aquecimento global a 1,5°C acima dos níveis da época pré-industrial por meio da transição energética, combate ao desmatamento e financiamento climático. 

Nesta edição do IFSC Verifica, conversamos com a professora Thaís Collet, responsável pela área de Meio Ambiente no Câmpus Jaraguá do Sul-Rau, e com o professor Mário Francisco Leal de Quadro, coordenador do mestrado em Clima e Ambiente do Câmpus Florianópolis, sobre o legado que o evento deixa para o Brasil e também para Santa Catarina.

A COP30 foi dividida em duas partes: a Zona Azul, onde representantes oficiais dos países participantes debateram os objetivos principais de combate às mudanças climáticas. Já a Zona Verde foi o pavilhão que reuniu a sociedade civil, como organizações não-governamentais, empresas, cientistas e povos originários em eventos paralelos. Pela primeira vez, houve a participação expressiva da sociedade civil e comunidade científica na discussão de temas transversais aos objetivos principais da COP30, como a mitigação dos efeitos dos eventos extremos, populações vulneráveis, povos originários e racismo ambiental.

A professora Thaís lista três legados da COP30 para o Brasil: 1) a consolidação do país como uma liderança ambiental, tendo a delegação brasileira papel central nas negociações; 2) o financiamento ambiental, com o Fundo Florestas Tropicais para Sempre; 3) e a primeira COP realizada na Amazônia, com intensa presença de movimentos sociais.

O professor Mário de Quadro destaca como um ponto positivo a participação social na COP 30. Como ponto negativo, o professor aponta o fato da substituição dos combustíveis fósseis não ser citada no documento oficial da COP30, a Carta de Belém. 

Veja também outros tópicos abordados pelos professores e que marcaram a Conferência realizada na Amazônia:

Brasil como liderança ambiental e a participação popular

Com a realização da COP30 em Belém, o Brasil consolidou-se como liderança na área climática, estando à frente de negociações importantes quanto à implementação dos acordos, financiamento climático e pelo fim dos combustíveis fósseis. Por mais que o texto final não tenha trazido todos os pontos defendidos pelo Brasil, houve avanços nas negociações para reduzir a emissão de gases de efeito estufa para os próximos 10 anos.

A professora Thaís acrescenta que, pela primeira vez, a COP foi realizada na floresta amazônica. “Você traz as lideranças com poder de decisão, chefes de estado, com a caneta na mão, para dentro da floresta, e a sociedade civil como um todo e a cobertura da imprensa mundial”. O professor Mário concorda que o efeito prático de fazer em Belém é para que as pessoas vissem e sentissem o clima da Amazônia, sentirem mesmo como é viver no meio da floresta. 

Além disso, foi a COP com a maior participação popular da história, de movimentos sociais, inclusive indígenas, quilombolas, ribeirinhos, que não participariam desse movimento se a COP fosse realizada em outro país. Somente a Marcha Global pelo Clima reuniu cerca de 70 mil pessoas.

Nesse sentido, pela primeira vez, questões de gênero e racismo ambiental foram debatidos com destaque na COP, tendo figurado inclusive no principal documento do evento. “Quando falamos em racismo ambiental, falamos de quem está lá na ponta, sofrendo as consequências do aquecimento global de forma mais drástica, seja de subida do nível dos oceanos, seja de tempestades, seja de calor ou frio excessivos, e pela primeira vez essas pessoas estão sendo colocadas no centro das discussões”, destaca Thaís. “Cada movimento social defende a sua causa, mas quando envolve a questão climática, ela afeta diretamente todos, e todos trabalham juntos”, afirma o professor Mário.

A professora Thaís cita as questões econômicas e interesses de grandes empresas, muitas delas inclusive patrocinadoras da COP30 e que estavam lá defendendo esses interesses, como entraves para alguns avanços nas negociações. Porém, reconhece que mesmo assim houveram conquistas.

“Quando falamos em racismo ambiental, falamos de quem está lá na ponta, sofrendo as consequências do aquecimento global de forma mais drástica, seja de subida do nível dos oceanos, seja de tempestades, seja de calor ou frio excessivos, e pela primeira vez essas pessoas estão sendo colocadas no centro das discussões”, professora Thaís Collet
 

Financiamento climático

Os professores Thais e Mário destacam que houve avanço na questão do financiamento climático, considerado um dos legados muito importantes da COP para o Brasil. Entre os países participantes da COP30, 63 comprometeram-se em financiar o combate ao desmatamento nos países que detêm biomas importantes, especialmente a Amazônia, em um montante de aproximadamente 125 bilhões de dólares do Fundo Florestas Tropicais para Sempre, ou Tropical Forests Forever. Esse resultado está diretamente ligado à atuação dos negociadores brasileiros. Segundo o professor Mário, “o país tem se consolidado como um protagonista e líder nesse debate, especialmente na captação de recursos para o ‘Fundo Florestas Tropicais para Sempre’".

A professora Thaís explica que esses recursos devem ser usados em três principais ações, que são a conservação das florestas e dos biomas como um todo; a recuperação das áreas já degradadas; e ações de desenvolvimento sustentável, investindo para que as pessoas, como os ribeirinhos da Amazônia ou moradores do Pantanal, continuem em seus locais de origem vivendo de forma sustentável, sem exploração predatória. “Eu diria que esses recursos são o elo ou a ponte, vamos dizer assim, entre essas conferências e a prática. O elo entre essa teoria, tudo aquilo que se discute nessas conferências e a vida das pessoas”, analisa Thaís.

O professor Mário acrescenta que os recursos também são aplicados em projetos que auxiliam na mitigação dos efeitos do aquecimento global (amenizar os efeitos adversos) e na adaptação (ajudar as pessoas a terem acesso a formas de viver melhor dentro do "novo normal" das mudanças climáticas). Esses recursos são geridos pelo Ministério do Meio Ambiente e principalmente pelo Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES).

O financiamento climático também é direcionado para a área da ciência. “Os recursos são imensamente necessários para que a comunidade científica consiga entender os processos e saber as consequências das mudanças climáticas”, destaca o professor Mário. Ele observa um aumento de financiamentos para pesquisas na área de prevenção por instituições de pesquisa e ensino, universidades e centros de pesquisa além dos negociados pelos países na COP30.

“Os recursos são imensamente necessários para que a comunidade científica consiga entender os processos e saber as consequências das mudanças climáticas”, professor Mário Quadro
 

Combustíveis fósseis

Durante a COP30, o governo brasileiro propôs a adoção do “Mapa do Caminho”, documento que trata do fim do uso dos combustíveis fósseis como matriz energética (carvão, gás natural e petróleo) e do desmatamento, principais fatores do aquecimento global. Porém, essa medida não fez parte da Carta de Belém, documento oficial da COP30, o que é apontado pelo professor Mário como ponto negativo. 

Os professores entrevistados dizem que essa decisão já era esperada devido ao contexto político e à resistência de países ricos que ainda dependem desses combustíveis, como Índia e Arábia Saudita. No entanto, o professor Mário ressalta que a proposta não foi "de todo perdida": o Brasil continua na presidência da COP até a próxima conferência, e pretende realizar reuniões (pré-COP) para discutir propostas com países favoráveis ao Mapa do Caminho, como a Colômbia, a serem apresentadas na COP31, que será realizada na Austrália em 2026. 

Segundo Thaís, dos 194 países presentes na COP30, pelo menos 80 apoiaram o Mapa do Caminho, o que é bastante significativo, apesar de não ser consenso. “Não era uma proposta fácil. Os negociadores do Brasil já esperavam por isso. O que acontece é que você tem a questão econômica e a questão ambiental, elas estão sempre se chocando”, completa Thaís. 

Ambos os professores apontaram uma forte contradição na postura do Brasil, que lidera o discurso ambiental, mas avança na exploração de petróleo, com a perfuração de novos poços pela Petrobras na foz do rio Amazonas, e a tramitação no Congresso Nacional do Projeto de Lei 2159/2021, chamado “PL da Devastação”, que flexibiliza o processo de licenciamento ambiental.

O professor Mário salienta que o Brasil possui uma matriz energética praticamente toda limpa e não dependeria tanto desses combustíveis como outros países. Ele sugere que seja feito investimento em fontes alternativas de energia (eólica, solar) e meios de transporte não dependentes de derivados de petróleo, como ferrovias e transporte aquaviário.

Segundo Thais, a justificativa do governo para perfuração de novos poços de petróleo é a necessidade de assegurar soberania energética e utilizar o dinheiro da exploração do combustível fóssil para financiar a própria transição energética. No entanto, ela se mostrou cética quanto a essa postura, mencionando a força do lobby de grandes empresas.

O legado para Santa Catarina

O professor Mário destacou especialmente o legado da COP30 para Santa Catarina. Para ele, o Estado já está à frente quando se fala em monitoramento climático e adaptação aos efeitos das mudanças climáticas. 

Com a COP30, as questões relacionadas ao clima ganharam mais visibilidade, e o conceito de que o “clima não tem fronteiras”, o que acontece na Amazônia pode afetar nosso clima local, por exemplo. “O legado da COP reforça a necessidade de trabalhar em conjunto e cuidar de biomas distantes, como a Amazônia, pois isso afeta o quintal dos catarinenses”, destaca o professor. 

O incentivo às pesquisas na área de mudanças climáticas, como as desenvolvidas no mestrado em Clima e Ambiente do IFSC, também é importante para criar soluções de mitigação e adaptação ao "novo normal" climático.

De modo geral, a COP30 trouxe visibilidade ao tema ambiental, com intensa cobertura da grande imprensa e da mídia alternativa. Para a professora Thaís, a importância desses grandes eventos está em mostrar como as mudanças climáticas afetam a vida das pessoas e o que elas podem fazer em relação a isso, especialmente em relação a votar em políticos que defendam medidas de proteção ao meio ambiente.

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