Como escolher o melhor combustível para ajudar a reduzir o efeito estufa?

IFSC VERIFICA Data de Publicação: 17 mar 2026 15:27 Data de Atualização: 18 mar 2026 09:06

Você sabe o que são os Gases de Efeito Estufa (GEE)? Sabe como eles contribuem para o aquecimento global? No IFSC Verifica deste mês, a gente te responde essas e outras perguntas e ainda mostra como você pode contribuir para a diminuição da emissão desses gases ao escolher o combustível que irá abastecer seu carro. Apresentamos ainda um inventário de emissões por tipos de transporte em Santa Catarina, mostrando como o setor rodoviário, o ferroviário, o aéreo e o aquaviário contribuíram para a emissão desses gases, tendo como referência o ano de 2022.

Em 2022, Santa Catarina emitiu, a partir de fontes móveis, o equivalente a mais de 21 milhões de toneladas de dióxido de carbono (CO2) e outros mais de 4 milhões provenientes de fontes estacionárias, que seriam de origem industrial. Esse é o principal Gás de Efeito Estufa (GEE) emitido por atividades humanas, sem considerar o desmatamento. Os dados são de um levantamento realizado por estudantes do mestrado em Clima e Ambiente do IFSC que levou em consideração os transportes rodoviário, ferroviário, marítimo e aéreo e as emissões de origem industrial. “Nós estamos produzindo um inventário de gases de efeito estufa em Santa Catarina e verificamos que o setor rodoviário corresponde a mais de 78% das emissões, o aquaviário a cerca de 4%, o aéreo a 1%, o ferroviário a 0,12% e que as indústrias correspondem a cerca de 16%”, afirma o professor do Câmpus Itajaí, Cássio Suski, que também faz parte do quadro de docentes do Mestrado de Clima e Ambiente do IFSC.

O professor explica que há uma série de gases que contribuem com o efeito estufa, que é um fenômeno que mantém a temperatura da Terra em níveis adequados para a vida, o que evita que o planeta congele. “Os raios solares atravessam a atmosfera e atingem a Terra, gerando aquecimento. Os gases de efeito estufa retêm o calor irradiado pela superfície terrestre, aquecida pelo sol, impedindo-o de escapar totalmente para o espaço. Ao longo dos anos, esses gases foram aumentando a sua camada que retêm o calor e isso foi promovendo o aumento da temperatura global.”

Segundo levantamento da Organização Mundial de Meteorologia, a temperatura do planeta subiu o equivalente a 1,55° C em 2024 em comparação com a média de temperatura da era pré-industrial de 1850 a 1900, o que fez com que o ano de 2024 fosse considerado o mais quente da história. “Cada gás de efeito estufa tem um potencial de aquecimento, o CO2 é o que encontramos em maior quantidade e ele tem potencial 1. Ele é utilizado como referência para calcular o potencial de outros gases como metano (CH4) e o óxido nitroso (N2O), que têm capacidade ainda maior de reter o calor. O metano, por exemplo, costuma ser proveniente da pecuária e do desmatamento.”

O professor explica que o monitoramento de gases de efeito estufa ou poluentes em Santa Catarina ainda é incipiente e que há apenas três estações no estado. “Por conta da chuva ácida registrada na região próxima à termelétrica de Capivari de Baixo, em que há alta emissão de dióxido de enxofre SO2, é feito o monitoramento do ar na região, mas ainda faltam dados que façam esse levantamento em nível estadual. A nossa proposta é que com a instalação das estações meteorológicas do IFSC, realizadas em 2025, nos câmpus Florianópolis, Criciúma, Chapecó e Joinville, que a gente consiga ter um banco de dados de Santa Catarina. O que irá nos permitir fazer séries históricas, fazer modelagem e previsões.”

Além de fazer o levantamento das emissões de acordo com diferentes modais (tipos) relacionados ao ano de 2022 em Santa Catarina, o inventário, produzido pelos pesquisadores, também propõem diferentes cenários tendo como perspectiva a transição energética em que os combustíveis fósseis seriam substituídos ao longo do tempo por biocombustíveis, que são produzidos por biomassa orgânica como a cana-de-açúcar. No primeiro deles, em 2030, propõem-se que nos diferentes modais 40% dos combustíveis utilizados seriam biocombustíveis, em 2040, a proporção de biocombustíveis aumentariam para 60% até chegar em 2050 com todos os modais utilizando 100% de biocombustíveis. “A principal diferença entre um combustível fóssil e um biocombustível é que o biocombustível costuma ter origem vegetal, dessa forma, ele emite menos CO2 e, além disso, atua como um sumidouro de dióxido de carbono. Isso porque as plantas ao longo de seu crescimento absorvem CO2 durante a fotossíntese, enquanto que nos combustíveis fósseis nós só liberamos o dióxido de carbono.”

O professor explica que quando pensamos em reduzir os impactos ambientais e a emissão de gases de efeito estufa é importante pensar nesta transição energética. “Nós temos uma grande frota de carros flex no Brasil que aceitam etanol, mas ainda a maior parte da população usa a gasolina para abastecer os veículos. O etanol é mais barato e geralmente as pessoas fazem um cálculo para levar em consideração se seria mais eficiente abastecer com o álcool do que com a gasolina, mas além disso é preciso levar em consideração que abastecer com etanol reduz a emissão de gases de efeito estufa.”

Rodoviário

O engenheiro mecânico Edson Souza de Deus pesquisou o modal rodoviário em Santa Catarina em 2022 em sua dissertação. Ele usou como base para realizar os cálculos das emissões a versão brasileira da planilha GHG Protocol, que foi desenvolvida para facilitar o cálculo de emissões de gases de efeito estufa, e uma série de dados do Detran de Santa Catarina, da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biodiesel e uma estimativa média da quilometragem rodada de automóveis, caminhões e ônibus. No levantamento feito pelo engenheiro, ele verificou que 42% da frota de automóveis de Santa Catarina em 2022, era composta por carros flex. “ Do total de 25 milhões de toneladas equivalentes de CO2 emitidas em 2022 em Santa Catarina, cerca de 20 milhões são de origem rodoviária. No Brasil, o etanol corresponde a 30% da composição da gasolina o que já diminui os danos dos gases de efeito estufa. Mas ainda há muita resistência para a utilização do etanol. Os motores flex têm capacidade para fazer esta transição da gasolina para o etanol. Para quem tem receio de fazer esta troca, a minha sugestão é que ao abastecer o consumidor vá fazendo a transição aos poucos e vá aumentando a porcentagem de etanol gradativamente até chegar nos 100%.”

A partir dos dados levantados, Edson desenvolveu o site www.co2consciente.com.br em que é possível calcular as emissões de CO2 a partir do modelo do veículo utilizado e da distância percorrida. “Quero continuar trabalhando nesta plataforma para que depois seja possível também calcular o crédito de carbono necessário para realizar a remoção dos valores emitidos.”

Ferroviário

A pesquisadora Gabriela Lamim, em sua dissertação no programa de mestrado em Clima e Ambiente do IFSC, avaliou os impactos da emissão de Gases de Efeito Estufa (GEE) em caso de mudanças no sistema modal na rota de cargas portuárias de Santa Catarina, em que se ampliaria ao longo do tempo o transporte de mercadorias por meio de ferrovias. Hoje o estado conta com uma malha ferroviária de cerca de 1.334 quilômetros, o que corresponde a 4% da malha ferroviária no Brasil. No estado, as ferrovias se concentram na região carbonífera próximo à termelétrica de Capivari de Baixo e dos portos de Imbituba e de São Francisco do Sul.

Com a ferramenta GHG Protocol, ela quantificou as emissões de CO2e com dados de movimentação de carga para os portos referente ao ano de 2020. Os resultados mostraram que o caso o modal ferroviário e o rodoviário tivessem a mesma representatividade, o modal ferroviário apresentaria menores emissões de dióxido de carbono equivalente (CO2e), cerca de 118 mil toneladas de CO2 equivalente, quando comparado com o modal rodoviário, que seria de cerca de 337 mil toneladas de CO2 equivalente. Isso se daria por conta de que a capacidade de carga das locomotivas, onde é possível percorrer a mesma distância transportando mais material do que em caminhões. A quantidade transportada em 80 vagões e duas locomotivas emitiria cerca de 95 toneladas de CO2, já se fosse utilizado o modal rodoviário seriam necessários 105 caminhões tipo rodotrem ou 142 caminhões bitrem para transportar a mesma quantidade de insumos, emitindo 121 toneladas de CO2.

Modal aeroviário

No caso do modal aeroviário, estima-se que o setor seja responsável por 2,5% das emissões globais de CO2. A pesquisadora e turismóloga Cássia Mareco fez, em sua pesquisa no mestrado, um inventário das emissões em Santa Catarina do setor levando em consideração as chegadas e partidas de voos em 2022 nos aeroportos de Florianópolis, Chapecó, Jaguaruna, Caçador, Correia Pinto, São Miguel do Oeste, Navegantes e Joinville. Ela ainda correlacionou dados da duração dos voos, tipo de aeronave, distância percorrida e o índice de passageiros por quilômetro transportado. No caso de Santa Catarina, o setor contribuiu com 0,98% das emissões em 2022, o equivalente a 254 mil toneladas equivalentes de CO2.

Na pesquisa, ela observou que as aeronaves de fuselagem estreita, como Airbus e Boeing, são as maiores responsáveis pelas emissões totais de CO2 e que os impactos desse modal também podem ser observados pelas emissões de óxidos de nitrogênio. Ela observou que a adoção de combustíveis alternativos de baixo carbono ainda são poucas e que se transição energética de aviões fosse feita para utilização de Combustíveis de Aviação Sustentáveis (SAF) seria possível reduzir em 75% as emissões de CO2 equivalente.

Aquaviário

No caso do setor aquaviário, a inserção de biocombustíveis ainda é muito incipiente. Pesquisa realizada sobre as emissões de CO2 pelo setor em Santa Catarina, realizada pelo servidor do IFSC Eduardo Conceição em sua dissertação no mestrado em Clima e Ambiente, mostrou que em 2022 a frota de navios que circularam pelo estado predominantemente utilizavam óleo combustível e que se fosse adotado biodiesel, a redução das emissões poderiam chegar a 99% CO2e (equivalente de dióxido de carbono) referente aos combustíveis fósseis, desconsiderando os valores das emissões biogênicas, que são emitidas naturalmente por seres vivos, plantas e solos ou pela queima de biomassa (como etanol e madeira). Essas emissões fazem parte do ciclo natural do carbono, sendo consideradas neutras.

Ele analisou as emissões de Gases de Efeito Estufa e o impacto na temperatura causadas pelo modal aquaviário de Santa Catarina, a partir de dados da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) sobre as embarcações que passaram por cinco portos de Santa Catarina, Itajaí, Navegantes, São Francisco do Sul, Itapoá e Imbituba. “A estimativa é que mais de 80% da frota mundial de navios utilize o Bunker combustível, um óleo pesado derivado da destilação do petróleo e que liberam uma série de poluentes. O setor aquaviário é responsável por cerca de 3% das emissões de CO2 global, mas mesmo assim, esse modal consegue ser mais eficiente do que outros modais, por gerar menos emissões de CO2 por tonelada transportada, contribuindo para a redução das emissões dos Gases de Efeito Estufa (GEE). Um navio de cabotagem, que tem capacidade para circular pela costa dentro do país, pode transportar cerca de 10.000 toneladas, se o transporte fosse pelo modal rodoviário seria necessário cerca de 300 caminhões para transportar a mesma quantidade de mercadoria.”

Embora a maioria da frota marítima global ainda dependa do Bunker fuel como principal fonte de energia, as previsões apontam para uma queda acentuada no uso de combustíveis fósseis a partir de 2030. Essa virada é impulsionada por normas ambientais mais rígidas e inovações em tecnologias verdes. O setor já vive uma migração acelerada para opções mais ecológicas, como Gás Natural Liquefeito (GNL), biocombustíveis, metanol, motores elétricos e outras fontes, que cortam drasticamente as emissões de poluentes e o dano ao meio ambiente. Regulamentações globais, como a norma IMO 2020, que entrou em vigor 1º de janeiro de 2020, reduziu o limite máximo de enxofre no combustível de navios (bunker) de 3,5% para 0,5%, medida que busca reduzir os efeitos da poluição do ar e os impactos à saúde.

Projeto do IFSC estuda transição em embarcações da pesca artesanal

Um projeto do Câmpus Itajaí que está sendo realizado com recursos do Ministério da Pesca e Aquicultura, via emenda parlamentar, irá contribuir com o estudos de transição energética para barcos de pesca artesanal. A pesquisa reunirá professores da área de Recursos Naturais, Engenharia Elétrica e Mecânica e pescadores artesanais de Porto Belo. “Nós percebemos que ficaria inviável colocar uma placa fotovoltaica no barco porque não caberia a quantidade necessária para recarregar a bateria, inviabilizando o sistema. Nossa proposta é pensar em um motor híbrido que poderia reduzir o consumo de diesel de 25 a 30%. Nós estamos finalizando o projeto executivo e a proposta é que seja colocado um conversor no motor, aos moldes de um alternador de carro, para que fosse gerado energia elétrica para uma bateria no momento em que o barco estivesse funcionando a diesel, dessa forma, seria possível usar tanto o diesel quanto a energia da bateria para movimentá-lo. Os submarinos já funcionam a partir de energia elétrica e a proposta é pensar em formas de baratear esse sistema. Os estaleiros no Brasil já têm trabalhado para isso, mas percebemos que na pesca artesanal ainda as soluções para a transição energética são poucas. Essa é uma demanda para atender o setor da pesca artesanal surgiu a partir da Cop 30 realizada no Brasil”, explica o professor Rodrigo Otávio de Macedo Gomes, do Câmpus Itajaí, um dos pesquisadores envolvidos

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